quarta-feira, 25 de junho de 2008

em construção I

Sim. Era assim. Como se o corpo dela fosse todinho escrito em braile e tivesse sido, por suas mãos, tantas vezes traduzido, que ele o tinha decorado. Sabia de cada palmo, cada cicatriz, cada pinta dele. Sabe quando acontece de acabar a luz da casa da gente e mesmo no escuro, sabermos onde estão as coisas, a que distância exatamente devemos virar ou subir um degrau? Então... Nunca se sentia perdido no corpo dela, por mais força com que fechasse os olhos, por mais no escuro que se encontrasse.

E é. Era onde se encontrava, agora. Há anos que não a via e não existia escuro maior que esse, mas, mesmo assim, vez ou outra, contra tudo e contra todos – e contra ele e contra ela – a desenhava. Perfeitamente em cada detalhe. E com o mesmo deleite com o qual descobrira pela primeira vez aquele corpo todo novo, todo seu, vulnerável.

Há uma música bonita, a preferida do pai dela, que diz que os detalhes acabam sumindo na longa estrada, aquela que transforma o amor em quase nada. Mas ele discordava disso. O amor podia sim virar quase nada. Podia, aliás, virar nada, mas os detalhes... Eram justamente os detalhes que ficavam!

O jeito com que ela mordia o cabo da escova de dentes, antes de escová-los, para poder amarrar o cabelo, impedindo que ele caísse na pia na hora de cuspir a pasta, e ficava tentado conversar com ele com aquele cabo na boca, dizendo palavras inteligíveis enquanto ele, deitado na cama, assistia a televisão, concordando com a cabeça sem enteder nada. E em como acordava na manhã seguinte, primeiro que ela, e ficava olhando as marcas daquele sorriso torto na escova dela, antes de pegar a sua.

As sobrancelhas temporariamente despenteadas quando passadas suas mãos pelo rosto indo até a nuca, num daqueles momentos de cansaço nos quais ele a pegava no fim do dia, sentada na cozinha anotando mais uma receita, naquele seu vício de reescrever todas as obtidas com as amigas que julgava prendadas, ou no verso dos rótulos de leite condensado.

De como cantarolava “ciranda da rosa vermelha” quando ia lavar a louça. E ficava vermelha assistindo a algum pornô. De como dirigia com a mão no câmbio. E deitava de bruços para ir dormir, depois virava de um lado e dormia, enfim, do outro. O vestido amarelo que ele gostava. O par de argolas que ela gostava. A mania de fazer xixi antes do sexo, mesmo sem vontade. O rabo-de-cavalo que sempre ficava torto. O suspiro doce que acompanhava seus sorrisos. Seus passos pelo corredor. Da sala para o quarto. Da cozinha pra sala. Descalça, de salto, de meia. Sempre pôde ouvi-la passo a passo.

2 comentários:

jaum_di_boas disse...

Você e esses seus escritos acabam comigo.
E eu deixo.

João.

Tainá Jara disse...

Isso me lembra os filmes do Woody Allen, embora ele seja trágico até mesmo nos romances mais sarcásticos...